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13 de set. de 2006

invasão de privacidade + pequenas coisas da alma

quando cheguei no ponto de ônibus, o cara já estava encostado na parede e escorregando de bêbado. chegou o ônibus, subi. ele subiu também e sentou no banco à minha frente. por duas vezes, foi até o cobrador perguntar como chegava em algum lugar. por duas vezes, o cobrador nem olhou na cara dele. ainda bêbado, antes de voltar ao seu assento, ele virou pra mim e perguntou onde ficava o tal lugar. eu respondi. o cara me abriu um sorriso enorme com um bafo de cachaça maior ainda e resolveu sentar do meu lado. por mim, tudo bem. acho que foram 50 minutos de papo sério. embriagado era o corpo, não a mente.

ele tem 49 anos, três netinhas que quando ele chega em casa vêm correndo dar um beijo e um abraço, filhos crescidos e uma sabedoria popular suficiente para ser feliz. pelas mãos machucadas, acho que é pedreiro ou algo assim. veio da bahia para são paulo porque não se contentava com o pouco que conhecia. "eu queria saber como era a cidade grande", ele conta. "mas esses aí – apontando pro cobrador – não tem educação. eles tiram a gente do sério" ele tem razão. não têm educação e não sabem conversar. "podem estudar o quanto quiser", ele continuou. "mas me põe pra conversar sobre história pra você ver. eu ganho deles. esses aí não sabem nem conversar, não são que nem você, que me respondeu bonitinho. porque educação vem de berço, não aprende na escola, na faculdade. pode falar que eu não estudei, mas eu tenho educação e aí já ganho deles." eu acho que ele está certo. "eu sou pobre, mas meus filhos sempre tiveram de tudo em casa. claro, não é coisa de rico. eu chego no supermercado e mando eles pegarem tudo o que quiserem. gasto uns 400 reais de mercado todo mês. na minha casa não falta nada. não quer carne? abre a geladeira e pega frango." mas isso é luxo, não é? "é luxo, é luxo! você assiste aquela novela bicho do mato?" não. "eu vim do mato, eu morei na selva." que selva? "na bahia, eu sabia brincar com cobra, matar cobra, tinha bicho selvagem, coelho... à noite, se tinha lua não precisava de luz nenhuma, mas eu queria conhecer gente, conhecer a cidade grande. e, olha, eu sou tão fodido que ainda pego ônibus errado." mas o senhor é feliz? "eu sou. eu sou feliz." então, o senhor seguiu seu caminho e fez o que achava certo. agora, desce naquele ponto e vê se não pega o ônibus errado.

ele estava indo à favela do heliópolis dormir na casa de parentes. deveria acordar hoje cedo pra ir ao hospital heliópolis retirar um laudo e providenciar sua aposentadoria. mas os funcionários do inss entraram em greve.

é, eu não quis o perguntar o nome dele. acho que seria invasão de privacidade.

acho que essa fase working at home – doing what i want – business man é engraçada. fazia tempo que não pegava um livro pra ler. acho que comecei e parei de 20 a 30 no último ano. aí reapareceu rubem alves, um vozinho crânio que pensa e leva a vida com um simplicidade de palavras de dar inveja. ele é mineiro de boa esperança, bacharel em teologia, mestre em teologia, doutor em filosofia e psicanalista. e escreve umas coisas chatas e outras muito interessantes sobre vida, a psiquê e suas viagens a respeito das pequenas coisas da alma. simples e profundo, como um filme feito em paris, cujo roteiro é um grande diálogo e tem na trilha sonora apenas uma música, da Nina Simone. nada de mais.

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