h� alguns anos, eu conheci o santareno. de cara, ningu�m d� nada por ele. talvez eu e voc� tamb�m n�o d�ssemos. � um moreninho, magrinho, cabelo raspado e batido, bra�os e pernas longos e finos e �culos fundos escondendo um olhar de cachorrinho que acabou de apanhar.
ele n�o � brasileiro, � angolano. nasceu em uma aldeia no interior de angola. quando crian�a ajudava o pai no ro�ado. n�o perdia uma oportunidade de fugir do batente e ca�ar passarinhos com os amigos. dizem que era o melhor do ramo. aos 14 anos, saiu da aldeia para estudar na capital do pa�s, luanda. era o �nico lugar onde poderia ter um estudo decente por l�. deixou os pais e foi morar na casa de um irm�o. era tudo novo. carros, luzes, pessoas. Ap�s o deslumbre, veio a sensa��o de estar sozinho no meio da multid�o.
a casa era do irm�o, mas quem mandava era a cunhada, que n�o se importava e n�o gostava muito do moleque. na escola, apesar das dificuldades em se entender com as li��es, at� que a coisa ia bem. mas um dia ele n�o voltou pra casa.
o ex�rcito invadiu a escola, dispensou as meninas e fechou as portas. todo ser vivo do sexo masculino, n�o importa idade, cor, credo ou classe social, estava convocado para vestir e honrar a farda do seu pa�s. dali, santareno foi levado para uma base do ex�rcito sabe-se l� onde. Sua primeira miss�o foi um treinamento com balas de verdade. participou. sobreviveu. o menino virou homem.
por dois anos, viveu todo tipo de horror que uma guerra pode trazer. se arrastou no meio do mato, se escondeu em trincheiras, atirou no escuro. matou e quase foi morto. santareno perdeu as contas de quantas vezes pediu socorro a deus e morreu de saudades do pai, da m�e, de casa, e de amigos chorando com uma bala no peito. �eu vi muita gente morrendo�, ele conta, com a cabe�a baixa e o semblante mais ainda. �e n�o podia fazer nada.�
numa dessas noites escuras banhadas a sangue, santareno teve um sonho. era uma estradinha de terra. l� na frente havia uma �rvore. ele estava na ca�amba de um caminh�o que seguia por ali. ao passar em frente � �rvore, ele acordou.
no dia seguinte, sua tropa recebeu ordens para mudar de posi��o. dois caminh�es pararam em frente aos soldados. cada um juntou suas coisas, pegou sua arma e tomou seu lugar. lugar era sagrado. cada um tinha o seu e se algu�m trocasse sem autoriza��o de um superior podia perder a cabe�a. santareno estava no caminh�o da frente. na hora de partir, um dos generais saiu correndo do segundo caminh�o apontando pra ele. era uma ordem. �v� pro caminh�o de tr�s.� ele foi.
depois de horas de viagem, uma estradinha de terra. l� na frente havia uma �rvore. era uma emboscada. uma s�rie de explos�es mandou os caminh�es e todos que estavam neles pelos ares sem chance nenhuma de escapar. santareno acordou tempos depois, talvez horas, talvez dias. ele estava num hospital improvisado. a explos�o quebrou e torceu seu p�s, que ficaram soltos e voltados para tr�s. a solu��o da equipe m�dica foi voltar os p�s para a posi��o certa. n�o havia sedativo ou qualquer m�todo cient�fico. 1, 2, 3..... �eu desmaiei de dor.� na emboscada, s� uma pessoa morreu. o general que trocou de lugar com ele.
e antes que eu me esque�a
se voc� n�o � contra essa e qualquer outra guerra, fa�a um favor. morra!
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