todos os dias voltando da escola, da faculdade ou do trampo, eu cruzava com um senhor que vivia na esquina da padaria perto de casa. podia ser dia de sol, de chuva ou de muito frio que l� estava ele. acordava cedo e tomava o caf� que o povo da padaria arranjava. almo�ava o que ganhava de quem passava. jantava qualquer coisa que ca�sse do c�u. n�o lembro de serem muitas �s vezes que o vi abra�ado a uma garrafa de cacha�a. mas lebro de nunca ter visto aquele homenzinho dando trabalho ou incomodando algu�m.
ganhou um certo respeito, compaix�o e simpatia de algumas pessoas do bairro. isso lhe rendia um sapato novo, um p�ozinho fresco, o caf� quentinho e at� um ou outro jornal da banca ali em frente.
por mais de dez anos, a mesma cena se repetia todo santo dia. aquele senhor de cabelo e barba brancos ficava sentadinho ali, no murinho da padaria, com um cigarro na boca, observando o mundo e a vida passar. por motivos e teorias pessoais, n�o dou dinheiro pra ningu�m na rua. nunca. mas n�o suportava ver aquele homem de barba e cabelos brancos vivendo daquele jeito por tanto tempo. eu n�o tra� minhas teorias, mas n�o podia trair meus sentimentos. perdi as contas de quantas vezes passei por ali altas horas da noite morrendo de frio e vi um montinho de roupa encolhido sobre uma caixa de papel�o. s� podia pedir a deus pra dar um jeito naquilo sei l� com que tipo de milagre. h� coisa de dois anos, o milagre aconteceu.
fazia um frio insuport�vel h� dias. frio desses que at� o sol se intimida com o ar gelado. mas o senhor continuava com sua rotina lenta, tranq�ila e sem reclamar. cheguei em casa e minha m�e estava ligando enlouquecidamente para um monte de gente, fam�lia e amigos. ela arranjou um quartinho de uma pens�o ali perto e precisava de gente que desse uma grana pra ajudar a pagar a estadia daquele senhor durante aquele m�s de frio. conseguiu. aquele senhor, o �seu� lucas, ganhou um m�s de cama e banho. s� que o m�s passou e ele voltou pra rua, como n�o poderia deixar de ser. com setenta e poucos anos, conseguir alguma forma de ganhar o p�o � quase imposs�vel. ainda mais quando n�o se quer.
meses depois, meus pais conheceram um homem que tinha uma casa vazia com dois c�modos para alugar. conversa vai, conversa vem, �seu� lucas finalmente ganhou novamente um �lar�, por mais simples que fosse. tive poucos e raros momentos de conversa com ele. ouvi um pouco da sua hist�ria.
mineiro de uma cidadezinha que n�o vou lembrar o nome, tem v�rios irm�os vivos que n�o queria ver nem pintandos de ouro. quando o pai morreu, escolheu viver na rua. e viveu at� os quase setenta anos.
semana passada, meu pai ouviu falar que o �seu lucas� n�o estava muito bem, nem se levantava da cama. foi ver o que acontecia, levou pro hospital. uma semana internado. a fam�lia apareceu, visitou, (re)conheceu. nesse �ltimo domingo, pouco antes do almo�o, meus pais foram at� o hospital. estava mal, n�o falava e s� respirava com uma m�scara de oxig�nio. depois do almo�o, ele faleceu. �timo dia para se morrer, ainda mais para quem, por muitos anos, a vida foi um eterno domingo.
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