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18 de dez. de 2002

deds em Bras�lia
Eu pensei em escrever um monte de coisas sobre a viagem at� Bras�lia, mas na hora de colocar os dedos pra trabalhar acabei desistindo, s� que depois eu voltei atr�s. Imaginem eu pela primeira vez num avi�o, em Bras�lia, num discurso pra gente importante... O que poderia acontecer?

em casa
Como n�o poderia deixar de ser, o motorista que ia me levar pro aeroporto n�o chegou. Com meia hora de atraso, a Abril resolveu me pagar um t�xi. E fui de t�xi.

aeroporto de congonhas, s�o paulo, sp
No guich� da Varig:
mo�a de coque: sua passagem n�o est� confirmada, senhor. Voc� vai entrar na fila de espera, senhor.
deds: como assim?
mo�a de coque: pronto, senhor.
deds: pronto o qu�?
mo�a de coque: te encaixei na �ltima vaga dispon�vel, senhor. na �ltima janela, senhor.
deds: �?

Depois dessa minha �ltima fala repleta de intelig�ncia e sabedoria, percebi que a mo�a de coque entendeu que estava diante um completo man� que nunca tinha entrado num avi�o na vida.

mo�a de coque: � que a sua passagem n�o havia sido confirmada, mas eu consegui te encaixar na �ltima vaga dispon�vel, que � na janela e na �ltima fileira.
deds: putz, valeu.

Nunca estive numa fila de espera t�o r�pida. S� que eram 7h15 e o embarque seria s� �s 8h35. Fui direto pro lugar do embarque.


lugar de embarque, aeroporto de congonhas, s�o paulo, sp
Sentei um cantinho estrat�gico e fiquei de olho na galera chegando e passando pelo detetor de metais. Vi a madame fazendo bico e tendo que abrir a bolsa pro seguran�a, um monte de gente engravatada, a patricinha com uma argola de metal que na fivela do cinto e o yupie tentando dar um de esperto com a negona que tamb�m era seguran�a:

yupie: mas � s� um canivete su��o!
negona: n�o interessa, n�o pode e pronto.
yupie: ent�o eu vou l� falar com o pessoal da seguran�a.
negona: ent�o vai.
yupie: deixa eu levar meu canivete at� l�.
negona: n�o. Voc� vai. Ele fica.
yupie: mas � meu canivete.
negona: n�o. Voc� vai. Ele fica.
Ele foi.
negona: folgado. T� achando que vai me enganar?

Hora de entrar no avi�o. Coloquei minha fantasia de �eu j� fiz outras vezes� e fui. Daqui a pouco eu olho pra tr�s e, adivinhem que estava no mesmo avi�o que eu. Lima Duarte. Se ele n�o fosse ator de novela. Seria Papai Noel de shopping, � velhinho simp�tico.


indo pro avi�o
Segui na dire��o que todo mundo ia e fazendo o que todo mundo fazia. Entrei no �nibus que ia levar a cambada pro avi�o. Fui de p�, claro. Acho que esse � o �nico lugar que rico pega �nibus. Subi aquela escadinha de avi�o e passei pela portinha do avi�o. A mo�a de coque estava l�. �Bom dia, senhor.� �Ah, oi. Bom dia.� Ufa, algu�m conhecido. Peguei um jornal como todo mundo e segui em dire��o ao assento 22A. Andei, andei, andei, andei. Pensei que ia sai pela outra porta, mas n�o sai. Realmente a mo�a de coque me deu o �ltimo lugar daquele avi�o. Era na �ltima fileira. Atr�s de mim s� a cozinha, o banheiro e a cauda. Ainda bem que era na janelinha. Cheguei a desconfiar que tinha alguma coisa errada com aquele lugar. Em �nibus, o �ltimo lugar s� est� vago porque o banco est� molhado, sujo ou o cara do lado n�o est� cheirando bem. Enfim, sentei e, como todo mundo, abri meu jornal. N�o li uma letrinha. O avi�o encheu, lotou. Lima Duarte sentou l� no meio, o que aumentou minhas desconfian�as sobre o �ltimo lugar. Tinha que ter alguma sacanagem. Do meu lado sentou uma mulher e do lado dela (porque em avi�o as fileiras tem tr�s bancos e n�o dois como nos �nibus, � bom dizer) uma senhora com ares de professora de portugu�s.

para o alto e avante
Aten��o senhores passageiros, unh� unh� unh�, unh� unh� unh�, unh� unh� unh� (que nem o desenho do Snoopy). �s vezes eu at� entendia o que a mo�a de coque falava no alto-falante, mas eu n�o vou lembrar. S� achei muito s�dico a parte do �em caso de emerg�ncia...�. Na hora que ouvi as turbinas funcionando, mandei o jornal �s favas e coloquei a cabe�a na janelinha. T� bom, me entreguei, mas o qu� que eu ia fazer. Em trinta segundos eu estava sobre a cabe�a de todos os paulistas. Vi a Pra�a da S� e a avenida do Estado. Segui com os olhos e, acreditem, eu vi meu pr�dio por um segundo l������ em baixo. Vi a zona leste, S�o Caetano, Santo Andr� e a� n�o reconheci mais nada. Pensei em muita coisa, em muita gente, mas eu estava sozinho. Queria que um monte de gente estivesse l� comigo. N�o tinha ningu�m. S� eu, o Lima Duarte e a mo�a de coque. Os outros n�o contam, n�o sei nem se eram gente de verdade, sei l�.

chegando
Chegando em Bras�lia, continuei indo atr�s de todo mundo at� que achei a sa�da e um cara (um s�sia do Rivelino, aquele que jogou no Tim�o � � e era comentarista de futebol da Band) com uma baita placa esperando o pessoal do pr�mio. Claro que corri pro telefone e liguei a cobrar pra casa.
O Rivelino levou todo mundo pro hotel. No hotel s� deu tempo de tomar um banho rapidinho, colocar a fantasia de padrinho de casamento e voltar pra lota��o do Rivelino, que agora levou a rapaziada pro Pal�cio da Justi�a.

a rapaziada
Rapaziada � modo de dizer, porque tinha eu, um carinha universit�rio do Rio Grande do Sul e uma crian�ada (s� podia ser, eu tinha que estar nomeio da crian�ada) com pais ou professores. Tinha tamb�m uma mulheres esquisitas se achando o m�ximo porque estavam ganhando o tal pr�mio, mas depois eu falo delas.

enquanto isso na sala da justi�a......
cara de p� no canto: boa tarde, unh� unh� unh�, unh� unh� unh�,
unh� unh� unh�. E agora com voc�s.........

ele chamou os doutores organizadores do pr�mio e, por �ltimo,

cara de p� no canto: representando todos os premiados, o jornalista deds.
clap clap clap.

Todos os premiados? Ferrou. Sentei na �ltima cadeira e comecei a editar, cortar e reescrever algumas coisinhas no discurso.

cara de p� no canto: o excelent�ssimo doutor secret�rio executivo do Minist�rio da Justi�a vai falar.

O excelent�ssimo come�ou pedindo desculpas por estar ali. Ele estava no lugar do excelent�ssimo doutor Ministro da Justi�a que teve que ir no enterro do excelent�ssimo jurista que caiu no aeroporto, bateu a cabe�a e morreu. Terminou pedindo licensa e dizendo tchau.

cara de p� no canto: agora, o jornalista deds vai falar em nome de todos os premiados.


a pedido, o discurso

�Boa tarde, eu sou Andr� Ciasca rep�rter da revista Quatro Rodas.
Confesso que quando me disseram que eu faria parte da mesa e que ainda teria que fazer um discurso, fiquei um pouco tenso. � que esta � minha primeira vez em Bras�lia, � minha primeira vez em uma mesa de premia��o e este � o meu primeiro discurso. Ent�o, j� pe�o desculpas pelos eventuais engasgos e trope�os.
Primeiramente, muito obrigado a todos pela presen�a, aos integrantes da mesa, �s autoridades presentes. Ao Denatran, obrigado pela oportunidade de representar a Quatro Rodas e meus colegas jornalistas. � uma honra representar uma publica��o como a Quatro Rodas, que h� mais de 40 anos v�m informando, entretendo e conscientizando seus leitores e pautando temas que devem e precisam ser discutidos. Um deles � o motivo de estarmos aqui, o tr�nsito. E quando o assunto � o tr�nsito, conscientizar deixa de ser uma fun��o do jornalista para tornar-se quase que uma obriga��o. Escrever e falar sobre tr�nsito � quase sempre como escrever e falar de caos. E quem, infelizmente, n�o tem uma hist�ria de congestionamento, acidente, mortos ou feridos pra contar?
O brasileiro � indiscutivelmente apaixonado por carros. J� n�o � t�o comum, mas ainda tem gente que adora gastar uma horinha mexendo, limpando e encerando sua m�quina. S� que nem sempre leva em considera��o que, ao mesmo tempo que seu carro � um meio de transporte e de divers�o, � tamb�m uma arma fria e cruel. � preciso educar e conscientizar a sociedade. Por isso este pr�mio � importante, porque reconhece o esfor�o de publica��es, jornalistas, pesquisadores, escolas, professores e estudantes que durante este ano discutiram e trouxeram � tona os problemas do tr�nsito no intuito de provocar mudan�as na sociedade, de olho no futuro.
Para n�s, jornalistas, contribuir para a melhoria do tr�nsito n�o � uma miss�o solit�ria, um objetivo �nico. � simplesmente o exerc�cio cotidiano da cidadania. � uma responsabilidade moral, assim como lembrar e cobrar os �rg�os governamentais e as autoridades de seus compromissos. � a nossa forma de participar de um problema que afeta a sociedade, afeta nossos amigos, nossos colegas, nossa fam�lia (eu sei que �s vezes n�o parece, mas jornalista tem fam�lia, sim).
Aos 23 anos, n�o sou mais que um aprendiz desse mundo. Receber um pr�mio como este, independente de ser 1�, 2� ou 3� colocado, � um grande est�mulo para continuar acreditando que meu trabalho � realmente capaz de provocar mudan�as na sociedade e colaborar, de alguma forma, para que as crian�as que hoje est�o na escola cres�am crendo que no futuro existe esperan�a.
Mais uma vez, obrigado pela oportunidade. Espero que a Quatro Rodas sempre participe deste concurso. N�o pelos pr�mios, mas sim por cumprir um dos mais importantes pap�is da imprensa, o de conscientizar as pessoas.
Parab�ns a todos os premiados. E parab�ns ao Denatran pela iniciativa.
Obrigado.�

Falei. N�o sei se bem ou mal. Acho que a doutra diretora do Denatran me citou umas tr�s ou quatro vezes enquanto falava no microfone. Eu ia me encolhendo cada vez mais naquela cadeira verde da era JK.

Mexi em algumas coisinhas de �ltima hora, mas foi isso.
N�o usei a palavra irrefut�vel e nem fui t�o amotinado quanto poderia, mas foi isso que foi.


por hoje chega
Bom acho que j� escrevi demais por hoje. Se der Ibope continuo a hist�ria. Se n�o der, eu escrevo um post sobre macr�fago.

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